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Despedida

Percorro entre lágrimas o caminho que me levará à estação, onde todas as vezes que tinha que regressar a Lisboa e deixar-te, porque os teus concertos não te permitiam acompanhar-me, te despedias de mim, em derradeiras tentativas de me fazeres ficar.

Mas Lisboa chamava-me sempre, quando mais precisavas de mim. Era uma das ironias desta relação única: quanto mais precisávamos um do outro, mais longe acabávamos por ficar.

E esta era a primeira passagem de ano que faríamos separados.

As ruas enfeitadas com as iluminações de Natal, dão-me um aconchego caseiro, de cidade que aprendi a amar.

O caminho não é longo, o casaco de peles protege-me do frio.

A diferença é que o percorro só e não te vou ter a reter-me num abraço, enquanto ao comboio dão o sinal de partida. Nem ver-te a correr ao lado do comboio, mão na janela, onde também num gesto infantil, espalmava a minha.

Relembro como o teu rosto se encrespava, para que eu não te adivinhasse a tristeza.

Lembro como forçavas um sorriso para secar as lágrimas que me bailavam nos olhos. Sempre. De todas as vezes que nos despedimos. Tantas vezes, que lhes perdi a conta. Mas guardo o cheiro da Estação, as luzes, o movimento dos carregadores, as bagagens e os olhares discretos, mas curiosos, sobre nós. Porque nos despedíamos, para não termos que nos despedir, num “até já” que me irritava.

Penso-te neste percurso em que me deixas à deriva, neste casaco de peles que me aquece da tua ausência.

Casaco que foi a ultima prenda com que me mimaste, apesar de seres um acérrimo defensor dos direitos dos animais. Mas foste convencido sempre pelo animal que havia em mim.

Entro na Estação. E por momentos sinto-me atordoada, não percebo o que faço ali. Para onde vou.

E tu, onde estás?

Regresso a Praga

Confortada pela voz do Rufus Wainwright, relembro as ruas estreitas onde nos perdemos tantas e tantas vezes, nas tentativas contínuas de me encontrar.
No teu olhar ou através do teu toque. Suave. Sabedor. Experiente. Catedrático.

E eu, na aprendizagem que jamais esqueci, regresso às cores, aos sabores e aos odores de uma Praga envelhecida e sempre renovada. Em vielas e monumentos. Em quartos de hotel com cheiro a mofo. Em noites de Praga que guardo na memória.

Inesquecíveis, por mais que quisesse esquecê-las.

Pelo vazio que ficou. Quando decidi partir.

Estranho. Ter ficado vazia de ti, mesmo tendo sido eu que parti.
E ao rever-te, nesse olhar penetrante e intemporal, não posso negar que o meu coração acelerou…Porque razão?

O teu olhar, esse olhar que me penetra até à alma, que me desvenda os segredos, mesmo os que guardo de mim. Como podes ainda manter esse olhar hipnótico, que me seduzia, ao qual me abandonava? O teu olhar onde me perdia e reencontrava, simples esvoaçar de borboleta, fugaz o toque, as palavras que permaneceram na minha boca, assim o decalque do teu corpo em mim, os sabores e a ausência…A minha.

De ti e de mim mesma.

Sempre em fuga, dizias.

Tento um esquecimento.
A mão do jovem que me acompanha ensaia um gesto atrevido, como que a lembrar-me, que está ali. Puxa-me para ele, molda-me ao seu corpo, sinto-o excitado….
O ciúme excita?
Correspondo, com um atrevimento que o surpreende: descalço-me e toco-o por debaixo da mesa, até quase ao clímax.Aceito o beijo apaixonado do meu jovem companheiro.Esboças um gesto de enfado, chamas o empregado e sais.
Por momentos não sei o que fazer.
Debato-me ente o Querer e o Dever (numa luta antiga, que nunca me deu tréguas).
Entretanto perdi a fome. Acuso uma indisposição, o meu namorado sorri compreensivo, paga a conta e saímos.
O vento revolve-me os cabelos. Lembro-me das tuas mãos na minha face, sempre que uma madeixa teimava em cobrir-me os olhos…
Chegamos ao hotel e subimos ao quarto. Sinto que tenho que compensar o meu namorado e enquanto fazemos amor, eu de uma forma quase mecânica, embora em entrega total, recuo no tempo e lembro aquela tarde em que fiz amor contigo (porque a maioria das vezes fazíamos sexo) e em que parti.
Talvez por te amar demais.

Amar apaixonadamente

Reencontro-te em Praga.

Estou acompanhada por um jovem que desconheces. Finges que não me vês, mas percebo que ardes em curiosidade e ciúme.

Segues-nos até ao restaurante, depois pelas ruas, que há anos perorremos juntos, quando jurámos amor eterno, que o foi, enquanto durou.

Estranho encontrar-te ali…Será que alguma vez regressaste? Será que te vieste embora, no mesmo dia em que te disse que não te amava? Tu que me querias ensinar o que era o amor. E em Praga.


Mas eu, embora mais jovem, acho que sabia mais de paixão, que tu de amor. Ou pensava que sim. Porque ainda hoje não tenho a certeza.


Olho-te. e recuo no tempo.

Que será que farei a seguir?Passeio-me com uma paixão jovem, para me esquecer que envelheço. Olho-te e continuas com a mesma aparência, apesar da diferença de mais 20 anos de idade. Olhas-me, procurando em mim, a pupila de outrora, apaixonada pelo mestre, que queria ensinar o amor, enquanto nos dávamos em paixão.