Percorro entre lágrimas o caminho que me levará à estação, onde todas as vezes que tinha que regressar a Lisboa e deixar-te, porque os teus concertos não te permitiam acompanhar-me, te despedias de mim, em derradeiras tentativas de me fazeres ficar.
Mas Lisboa chamava-me sempre, quando mais precisavas de mim. Era uma das ironias desta relação única: quanto mais precisávamos um do outro, mais longe acabávamos por ficar.
E esta era a primeira passagem de ano que faríamos separados.
As ruas enfeitadas com as iluminações de Natal, dão-me um aconchego caseiro, de cidade que aprendi a amar.
O caminho não é longo, o casaco de peles protege-me do frio.
A diferença é que o percorro só e não te vou ter a reter-me num abraço, enquanto ao comboio dão o sinal de partida. Nem ver-te a correr ao lado do comboio, mão na janela, onde também num gesto infantil, espalmava a minha.
Relembro como o teu rosto se encrespava, para que eu não te adivinhasse a tristeza.
Lembro como forçavas um sorriso para secar as lágrimas que me bailavam nos olhos. Sempre. De todas as vezes que nos despedimos. Tantas vezes, que lhes perdi a conta. Mas guardo o cheiro da Estação, as luzes, o movimento dos carregadores, as bagagens e os olhares discretos, mas curiosos, sobre nós. Porque nos despedíamos, para não termos que nos despedir, num “até já” que me irritava.
Penso-te neste percurso em que me deixas à deriva, neste casaco de peles que me aquece da tua ausência.
Casaco que foi a ultima prenda com que me mimaste, apesar de seres um acérrimo defensor dos direitos dos animais. Mas foste convencido sempre pelo animal que havia em mim.
Entro na Estação. E por momentos sinto-me atordoada, não percebo o que faço ali. Para onde vou.
E tu, onde estás?


